BELÉN, UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA no streaming
Demorei a ver Belén, que chegou à Amazon Prime em novembro último. O filme representou a Argentina na disputa pelo Oscar. É um drama conduzido com mão firme e sensível por Dolores Fonzi, esplêndida atriz em seu segundo trabalho de direção. Baseia-se no caso real de Julieta Gómez, jovem pobre acusada em 2014 de praticar um aborto ilegal no momento em que era internada à beira de um aborto espontâneo.
O que mais me chamou a atenção foi como o pensamento anti-aborto estava disseminado na sociedade argentina, a se tomar como exemplo a província desenvolvida de Tucumán. Julieta (Camila Pláate) precisou preservar sua identidade na prisão para não ser agredida pelas outras mulheres, daí o pseudônimo Belén. Quando resolveu assumir o recurso para libertá-la em substituição a uma defensora pública que pouco se diferenciava de uma promotora, a advogada Soledad Deza (Dolores Fonzi) teve que enfrentar ameaças a ela e à família, a torpeza de um juiz e da burocracia judiciária, a canalhice da mídia conservadora, o conluio entre policiais e médicos, e até a oposição de crianças influenciadas por pais obscurantistas.
Trata-se, no fundo, de uma história de heroína. Uma heroína real. Em defesa de Julieta, Soledad liderou um movimento popular que contribuiu para a legalização do aborto até a 14ª semana de gestação na Argentina em 2020. Ao longo de toda a encenação, vemos trechos de gravações das manifestações da época.
Soledad era cristã, o que dá margem a um subtexto sobre o eventual papel de Deus na Justiça e na autogestão dos corpos femininos. Sem carregar nas tintas do filme de causa, mas usando um estilo similar ao dos filmes políticos de Ken Loach, Dolores Fonzi reconta dignamente um episódio crucial da luta feminista na Argentina.
>> Belén, uma História de Injustiça está na plataforma Amazon Prime.




